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Psicologia e Relações Raciais

1 – Como a Psicologia pode trabalhar para colaborar com o fim da discriminação racial?


São diversas as formas como a Psicologia como ciência e como campo profissional, como discurso e prática, pode atuar no combate ao racismo. Em primeiro lugar é fundamental apoiar e incentivar todas as ações que aumentem a presença de minorias étnicas (a exemplo da população negra e indígena) nos cursos e quadros da psicologia. A produção de saberes a partir de diferentes sujeitos, lugares e epistemologias permite uma maior alteridade, bem como imprime maior pluralidade ao saber. Ações como cotas raciais e sociais, programas como a turma especial para beneficiários da reforma agrária (PRONERA), implementada pelo curso de Direito da UFPR, ações de visibilidade de sujeitos e discursos são fundamentais para engendrar a transformação do campo da psicologia e dos discursos.

Além disso, a formação em relações étnico-raciais, a compreensão das estruturas do racismo são fundamentais nos currículos. Autores como Franz Fanon, Neusa Souza Santos, Abdias do Nascimento, entre várias e vários, indo desde a filosofia, sociologia, à psicanálise e psicologia social, deveriam ser obrigatórios num currículo que almeja atender a um país com mais da metade de sua população se autodeclarando como negra. O racismo não é só “um tema”. Ele é uma parte estrutural e inarredável de nossa identidade nacional, não levar tal fato em conta não só contraria as atuais previsões em Direitos Humanos como também é anti-científico.


2 – Como podemos aprender com tragédias históricas para combater a discriminação racial hoje?


O conceito de tragédia é interessante. Pouco se fala, por exemplo, no genocídio perpetrado por Leopoldo II no Congo, ou do genocídio da juventude negra no Brasil. A CPI do Genocídio da População Negra apurou que a cada 26 minutos um jovem negro morre violentamente no Brasil (https://anistia.org.br/campanhas/jovemnegrovivo/), sendo que os jovens negros possuem três vezes mais chances de serem mortos violentamente do que os jovens brancos. Esse dado é central na compreensão de que vivemos em uma tragédia histórica. Os massacres ocorridos recentemente nos presídios são o sintoma de um quadro maior de hiperencarceramento (http://www.seppir.gov.br/central-de-conteudos/noticias/junho/mapa-do-encarceramento-aponta-maioria-da-populacao-carceraria-e-negra-1) que afeta primordialmente homens pretos. Há menos de um mês foi sancionada uma lei que proíbe o uso de algemas na hora do parto.

São pequenos fragmentos de um colonialismo que ainda não acabou. As constantes restrições na demarcação de terras e o gradual extermínio da população indígena também são projetos inacabados, e que foram em grande parte começados e levados a cabo por Generais, Marechais e Coronéis que são nomes de ruas e praças. Voltando ao exemplo de Leopoldo II: somente durante o seu reinado foram executados 10 milhões de congoleses. No entanto, existe inclusive um prédio com seu nome numa das principais avenidas de Curitiba. Imagine um prédio chamado Adolph Hitler, seria inaceitável. Mas um edifício com nome de genocida de “outro” povo não causa incômodo.

O que podemos aprender com as tragédias históricas é que, como bem disse Hannah Arendt, “o mal é banal”, que as pessoas envolvidas nestes grandes extermínios os encaravam com a normalidade com que hoje se encara fronteiras fechadas, uma Polícia Militar altamente seletiva, um Poder Judiciário altamente seletivo, um sistema carcerário altamente seletivo. Devemos entender que a “normalidade” é o traço principal dos feitos mais tenebrosos da humanidade, desde o holocausto nazista à bomba atômica, com a diferença que estes fatos possuem um peso muito maior do que o grande extermínio negro e indígena levado a cabo no “sul” do mundo.


3 – A data (Dia Internacional contra a Discriminação Racial) tem como objetivo reforçar o combate ao preconceito, à intolerância, à xenofobia e ao racismo, vivemos em uma sociedade a qual os preconceitos costumam ser velados, como podemos fazer com que esses temas sejam discutidos cada vez mais e de uma forma mais sincera?


Inserindo-os nos currículos universitários, especialmente em áreas como a psicologia, a sociologia, o direito, a medicina, enfim, áreas que tratam do humano. Pautando a visibilidade destes povos, de suas tradições, de seus ritos, lendas, vivências concretas com a mesma universalidade que se pauta a mentalidade ocidental e cristã, levando o outro a sério até que o outro seja apenas um “nós”. A compreensão e a aceitação não são tarefas fáceis, exigem o enfrentamento de preconceitos como o racismo religioso que cerca as religiões de matriz africana, exige a valorização da estética da mulher negra, de seu cabelo, sua pele, a estética da pessoa negra como um todo.

Um dos mais fundamentais âmbitos de enfrentamento são as escolas. As crianças precisam crescer num ambiente de pluralidade, entendendo como possíveis e normais diferenças que hoje são escamoteadas. O ensino da história da África e dos povos negros sequestrados, uma revisão histórica de nossa perspectiva militarista de identidade nacional, tudo isso é fundamental na construção de um outro Outro para as futuras gerações.


4 – Com a internet, ficou mais fácil disseminar preconceitos, principalmente raciais, pois os criminosos acreditam que não serão punidos. Como lidar com uma pessoa que sofreu preconceitos por sua raça? Qual o tipo de atendimento Psicológico mais adequado nessas situações para crianças, jovens e adultos?


Entender que o racismo é uma luta política, e não uma demanda individual, é o primeiro passo. Se algo diz respeito a metade da população, então ou a psicologia não atende a essa população ou a atende não levando em conta seus interesses quando não leva em consideração o racismo. Neusa Souza Santos fala, por exemplo, sobre “tornar-se” negro, já que a pessoa negra não encontra na sociedade racializada branca referenciais capazes de suprir suas demandas de identificação e pertencimento, especialmente quando se trata de um sujeito em ascensão social. Daí que o sujeito precisa de referenciais sólidos, de coletivos de amparo, de uma rede que compreenda sua demanda. Isso transcende o individual e adentra o político, seja pela via do pertencimento a um grupo, seja pela construção de si em espaços hostis.

Muito se fala acerca da construção de resiliência, mas é uma irresponsabilidade limitar a discussão a isso. Obviamente que a pessoa de uma minoria étnica precisa construir ferramentas para lidar com os fatores concretos e simbólicos de sua existência. Das menores possibilidades no mercado de trabalho (com a mulher negra ocupando as posições menos remuneradas - http://portalfat.mte.gov.br/wp-content/uploads/2016/03/Caracter%C3%ADsticas-do-Emprego-Formal-segundo-a-Rela%C3%A7%C3%A3o-Anual-de-Informa%C3%A7%C3%B5es-Sociais-2014-31082014.pdf), passando pela questão estética, pela seletividade criminal, uma pessoa preta ou parda ou indígena certamente terá de criar estratégias para sobreviver.

A questão é que a Psicologia deve ir além do mero sobreviver. Os tópicos elencados acima se referem à transformação da subjetividade nacional a fim de que o dado racial seja um dado de pluralidade, e não de hierarquia, e isso passa por uma revisão dos privilégios, da estruturação dos espaços, dos currículos, da mentalidade como um todo. Na era da internet é muito comum que o discursos sejam hiperinflados e a ação política pífia. A questão é colorir a psicologia concretamente. Um bom exemplo foi o Encontro Nacional de Estudantes de Psicologia do ano passado (2016) que aconteceu em Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano, cuja centralidade deu-se sobre o tema negritude, atrelado a discussões acerca da interiorização do ensino, machismo, lgbtfobia, epistemicídio, para citar apenas alguns dos eixos trabalhados e vivenciados durante o encontro.

Lutar contra a discriminação racial é uma tarefa que exige seriedade e ação, e isso passa, principalmente, por ouvir as demandas dos coletivos políticos, dos povos organizados, dos sujeitos por quem se afirma lutar. A psicologia tem por cerne a escuta: já passou da hora de exercê-la quando o assunto é racismo.


Daniel Fauth Washington Martins

Graduando em Psicologia

Membro da Coordenação Nacional dos Estudantes de Psicologia (CONEP)


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